Exercício físico é no bairro de Matarraque
No bairro de Matarraque sobre drogas é como "sobre rodas". Se estiveres prestes a ser apanhado põe-te a mexer, o melhor é correres.
Prédios com o máximo de dois andares, de cor
branca e rosa velho. Nas paredes encontram-se os ‘tugs’, assinaturas, de quem
deixou marca da sua presença constante.
O bairro de Matarraque, na freguesia de
São Domingos de Rana, situa-se no concelho de Cascais.
Dentro do bairro, de um lado, um grupo
com três rapazes e dois homens, a discutirem entre si, entram dentro do carro e
vão embora, acelerados. Do outro lado, duas meninas, de etnia cigana, olham-me
de alto a baixo, desconfiadas e interessadas.
O bairro não é muito grande, é acessível
e toda a gente se conhece. É um bairro unido e quando enche é porque vêm os
amigos dos amigos dos moradores.
Ao olhar para o bairro em si, diria ser
um bairro bastante tranquilo onde as crianças e os jovens dos escuteiros
cantam, alegres, na sua sede ao lado do café do bairro que já mudou de gerência
três vezes porque acabam sempre por se dar mal com quem o frequenta. A última
gerência saiu após terem denunciado à polícia uma ocorrência ilegal de uns
jovens do bairro. Estes mesmos, após saberem, começaram a vandalizar todas as
noites a entrada do café por vingança.
Daniela, uma jovem angolana com dezoito
anos, foi viver para o bairro com quatro anos.
Vive com a mãe, com a irmã mais velha
que está à janela, com a avó Lucinda e com o sobrinho que está ao seu colo, com
a irmã mais nova a maquilhar-se e com a sobrinha que vem a rastejar, a sorrir e
a querer brincar, ao meu encontro.
Uma casa onde quem manda são as
mulheres, todos do bairro as conhecem. Não por ser a família que vive no último
andar com vista para Matarraque mas pelo respeito que metem.
O sol desce, 20 horas, a lua cresce. O bairro a noite, tem pouca luminosidade e
consegue ver-se algumas pessoas entre os prédios. Os jovens são os mesmos do
dia para a noite mas o cheiro que paira no ar, muda da noite para o dia.
Os senhores que estão a porta do café, já com algum toque no corpo pelo álcool,
mostram se cultos nos assuntos que falam e de vez em quando gostam de ir ter
com os jovens para estes lhes acrescentarem alguma da sua sabedoria.
A Daniela, ao entrar em casa todas as noites depara-se muitas vezes com os
amigos do primo a serem revistados à porta do seu prédio. Sente pena quando vê isto
e angústia por saber que já aconteceu ao primo inúmeras vezes.
Estes jovens, não têm grandes preocupações, mesmo assim, porque muitas vezes
conseguem esconder o que tem de esconder quando ao de longe e graças às luzes
azuis, começam a ver um carro de patrulha. O pior é quando sentem que algo anda
na rua sem fazer barulho, à noite.
As Malusso como moram no último andar, são as primeiras a perceber que há
agentes de autoridade com fardas que permitem não ver as suas identidades, por
cima das suas janelas que vão em direção ao telhado. Sem aviso prévio, há o
medo de que algo de mau aconteça a alguém como acidente ou propositadamente
pois não sabe no que estão a pensar. O silêncio dura pouco tempo, porque mal
eles descem dos telhados eles gritam para cima deles, para se encostarem e não
se mexerem no preciso momento.
A família da Daniela é muito satisfeita onde vive e apesar de ser um bairro
pobre e polémico, ela vive bem. Com uma família unida e a alegria que as
crianças deixam pelo corredor, nota-se a felicidade no ar.
Sobre drogas é como a expressão “sobre rodas”, ou seja, progredir de uma forma
satisfatória ou correr bem. “Ninguém sabe quem é este traficante”, é o que tem
de se dizer. O ‘chefe’ deste negócio tem amigos que tratam de entregas de mão
em mão para este não mostrar a cara.
As pessoas do bairro de Matarraque, são um grupo que quando chegaram a
Matarraque, não saem muito da localidade devido a terem o que necessitam
relativamente perto, como a escola, a mercearia, o café e a loja social.
No bairro de Matarraque há quem viva com altos e baixos, há quem se importe e
quem não se importe, há quem se perca e há quem sobreviva. Tudo acontece, tudo
pode acontecer.